O FIM: ANTÍOCO EPÍFANES, IMPÉRIO ROMANO, OUTRO PODER FUTURO -- 03/03/2003

 

As interpretações e reinterpretações proféticas são bastante elaboradas, preservando assim a fé de muitos. Assim, judeus ainda esperam um messias, cristãos aguardam a volta de Jesus, e todos dizem que as profecias não falham. Um grande exemplo é o assolador das profecias de Daniel. O capítulo 8 apresenta um personagem, o capítulo 7 traz outro, mas os capítulos 9 a 12 resumem tudo num só, e os evangelhos de Mateus e Lucas aplicaram tudo aos seus dias.

"O Dilema dos 2300 Dias
Refutação do livro de Clifford Goldstein
1844 Made Simple (1844 Simplificado)
(Traduzido para o português por Marta Martins Barrionovo)


“Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” Dan. 8:14.

Os Adventistas do Sétimo Dia têm uma interpretação verdadeiramente singular de Daniel 8, diferente de qualquer outra denominação cristã. Este artigo examinará os ensinamentos adventistas do sétimo dia sobre Daniel 8 e a profecia dos 2300 dias.

O CHIFRE PEQUENO DE DANIEL 8

Para entender os 2300 dias, devemos compreender a identidade do chifre pequeno de Daniel 8:9, porque é este chifre pequeno o que desolará o santuário durante 2300 dias. Os adventistas do sétimo dia ensinam que o chifre pequeno de Daniel 8 é o poder romano. O pioneiro e teólogo adventista J. N. Andrews escreve:

Em conseqüência, as atividades atribuídas a este “chifre pequeno” de Daniel 8:10-13, 23-25; 11:31; e 12:11 entende-se como que abrangendo Roma tanto pagã como papal em suas esferas de ação. (The Prophecy of Daniel, The Four Kingdoms, The Sanctuary, and the 2300 Days, pp. 69-70).

O guru adventista de profecia Urias Smith nos assegura que não tem nenhuma outra explicação possível:

Roma satisfaz todas as especificações da profecia. Nenhuma outra potência o faz. Por isso, Roma e nenhuma outra é a potência em questão. (Daniel and the Revelation, p. 162)

É verdade que somente Roma pode representar o chifre pequeno de Daniel 8? Examinemos a evidência!

Segundo os ensinamentos ASD, o chifre pequeno de Daniel 7 e o chifre pequeno de Daniel 8 são a mesma potência. Embora é verdade que ambas são descritas como chifres pequenos, logo descobriremos que a semelhança termina aí.

Primeiro, há uma importante troca de ênfase no livro de Daniel entre os capítulos sete e oito:

(Daniel 7) Potências mundiais representadas por bestas imundas
(Daniel 8) Potências mundiais representadas pelos animais de sacrifício do serviço do santuário.

(Daniel 7) Escrito em aramaico um idioma gentio Isto poderia indicar que foi escrito para ser lido pelo mundo gentio
(Daniel 8) Escrito em hebraico. Isto poderia indicar que foi escrito para ser lido pelos judeus.

(Daniel 7) A ênfase profética se dirige ao mundo inteiro
(Daniel 8) Enfatiza os serviços do santuário judaico.

Estas diferenças indicam que, embora o capítulo 7 dê enfoque ao mundo em geral, o capítulo 8 se concentra sobre os acontecimentos futuros de interesse particular para Israel.

Diferenças entre os chifres pequenos de Daniel 7 e Daniel 8

Agora examinemos as diferenças específicas entre o chifre pequeno de Daniel 7 e o chifre pequeno de Daniel 8:

O chifre pequeno de Daniel 7 (CP7)
O chifre pequeno de Daniel 8 (CP8)

(CP7) Está associado a uma besta que representa o QUARTO império.
(CP8) Está associado a uma besta que representa O TERCEIRO império.

(CP7) Surge diretamente da cabeça da besta.
(CP8) Surge de um chifre já existente.

(CP7) Aparece em meio aos 10 chifres já existentes (o que, segundo a teologia ASD, ocorre depois que o quarto poder se dividiu em 10 partes).
(CP8) Não nasce da cabeça do bode

(CP7) É um poder recente, novo, que surge do corpo do antigo império e em meio de suas várias partes.
(CP8) Sai de um dos quatro chifres da cabeça do bode

(CP7) É um chifre que nasce de uma besta.
(CP8) É um chifre que nasce de um chifre.

(CP7) Arranca três chifres durante seu surgimento.
(CP8) Não arranca nenhum chifre durante seu surgimento

(CP7) Diz-se ser diferente dos outros 10 chifres, indicando que este chifre seria um poder novo e diferente.
(CP8) Nada indica que este chifre seja novo ou diferente em maneira alguma.

(CP7) As palavras aramaicas para chifre pequeno em 7:8 se traduzem precisamente como “outro chifre, um pequeno”.
(CP8) As palavras hebraicas para chifre pequeno em 8:9 se traduzem precisamente como “um chifre de pequeno tamanho”.

(CP7) É “mais robusto do que seus companheiros” (v. 20). Em outras palavras, representa um poder mais forte que os que estão simbolizados pelos outros 10 chifres.
(CP8) É um chifre que sai de um chifre, um “chifre de pequeno tamanho”. É insignificante quando se compara com os quatro “chifres notáveis” e o chifre original alexandrino do bode.

(CP7) Seu campo de influência é a totalidade do quarto império, pois surge da cabeça da besta e se converte no chifre dominante entre os outros dez chifres.
(CP8) Pertence somente a uma das quatro divisões do poder do bode. Sua atenção se restringe principalmente a uma província menor de uma divisão do império do bode, ou seja, a “terra gloriosa” do versículo 9, que é a Palestina.

(CP7) Se levanta contra “o Altíssimo” e os “santos do Altíssimo”. Estes são os santos de Deus através de todo o quarto império.
(CP8) A malevolência é dirigida contra o povo judeu, seu sumo sacerdote, os sacrifícios, e o santuário. A atmosfera e o aspecto do capitulo 8 indicam uma batalha local e levítica.

É óbvio que há muitas e significativas diferenças entre o chifre pequeno de Daniel 7 e o chifre pequeno de Daniel 8. Há também diferenças no momento em que as pontas chegam ao cenário da história.

QUANDO SURGE O CHIFRE PEQUENO DE DANIEL 8?

“De um dos chifres saiu um chifre pequeno, e se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa” Daniel 8:9.

Daniel 8:9 diz que o chifre pequeno teria sua origem nas divisões do império de Alexandre, “no fim do seu reinado” (v. 23). Isto nos aponta a um poder que se originou no mundo grego em algum momento depois do ano 300 AC. Roma nunca foi parte do império de Alexandre, nem se originou de uma das divisões do império grego. Roma surgiu na Itália e foi fundada no ano de 750 AC. Roma se converteu em República no ano 509 AC e não conquistou as quatro divisões do império grego. Isto é prova adicional de que Roma não surgiu de nenhuma das quatro divisões do império de Alexandre. Portanto, Roma não se encaixa no símbolo profético de um chifre que surge de um chifre dentro do império grego.

O “chifre pequeno” de Daniel 7 não teve seus começos senão até que a quarta besta se dividiu em dez reinos, o que ocorreu 476 anos depois de Cristo! O chifre pequeno de Daniel 8 havia de surgir “no fim do seu reinado” (v. 23). “O seu reinado” se refere às quatro divisões do Império Alexandrino. Portanto, o chifre pequeno de Daniel 8 havia de levantar-se seis séculos antes que existisse o chifre pequeno de Daniel 7!

Segundo os adventistas, os 2300 dias começaram no ano 457 AC. e terminaram no ano 1844 D.C. Supõe-se que, durante esse período de tempo, o chifre pequeno de Daniel 8 “pisou aos pés” o santuário. De acordo com os ensinamentos adventistas, isto começou quando Roma pisoteou o santuário terrestre e logo se converteu em Roma papal que pisoteava o santuário celestial. Isto apresenta vários dilemas:

1. Roma não teve nenhum contato com os judeus senão no ano 161 AC. Como poderia o chifre pequeno haver começado sua obra no ano 457 AC, 296 anos antes de entrar em contato com os judeus?

2. Roma não importunou os judeus senão depois de que a Palestina se converteu em parte do Império Romano no ano 63 AC. Como pode o chifre pequeno “pisotear” o santuário durante quase 400 anos sem haver molestado jamais o serviço do santuário?

3. Se Roma papal é o chifre pequeno de Daniel 8 durante a última parte dos 2300 dias, que ocorreu a Roma papal em 22 de outubro de 1844? Por que não há nenhum acontecimento na história papal que coincida com o final dos 2300 dias?

4. Se Roma papal não perseguiu os judeus nem deteve os sacrifícios no ano 457 AC, e se não há nenhum acontecimento na história papal que coincida com a terminação dos 2300 dias em 1844, como podemos então, vincular Roma a esta profecia?

Daniel 8 não diz que os quatro chifres foram absorvidos pelo chifre pequeno, como as quatro divisões do império de Alexandre foram absorvidas por Roma. A aplicação a Roma converte a profecia em algo bastante diferente do que indicam os símbolos de Daniel.

Quem lê o capítulo inteiro não pode deixar de ver que um acontecimento se segue ao outro.

1. O surgimento do “chifre grande” (Alexandre) ocorre primeiro
2. Governa por um tempo e é “destruído”
3. Seu império se divide em quatro novos impérios
4. O “chifre pequeno” aparece em cena DEPOIS dessa divisão!

Um acontecimento depende do outro e podemos seguir o curso deles através da história. Agora, consideremos cuidadosamente a seguinte cronologia:

1. Alexandre morreu no ano 323 AC.
2. O império de Alexandre se dividiu no ano 301 AC.
3. O chifre pequeno não poderia haver aparecido senão no cenário DEPOIS desta divisão!

Como poderia o chifre pequeno estar ativo no ano 457 AC quando a profecia não mostra que surgiria senão depois do ano 301 AC?

O CHIFRE PEQUENO DE DANIEL 8 É UM REI, NÃO UM IMPÉRIO

“Mas, no fim do seu reinado (das quatro divisões do império grego), quando os prevaricadores acabarem, levantar-se-á um rei de feroz catadura e entendido de intrigas” (8:23).

Não pode haver nenhuma dúvida de que aqui Gabriel identifica o “chifre pequeno” do versículo 9 como “um rei de feroz catadura”. A palavra hebraica para “rei” no versículo 23 é melek, e significa “um rei, rei real” (Strong). A palavra melek não se traduz nunca como “reino, ou poder mundial, ou império”.

Gabriel usa a mesma palavra hebraica melek para identificar o chifre grande do bode no versículo 21, o qual todos os eruditos bíblicos concordam que se refere a Alexandre.

No versículo 23 (vê-se mais acima), a palavra “reinado” vem da palavra hebraica malkuth, que significa “um domínio, império, reino, reinado, reino, real” (Strong). Portanto, Gabriel fez uma óbvia distinção ao usar estas duas palavras. Eis aqui o que Gabriel disse:

De um malkuth (domínio, reinado, império, reino) se levantará um melek (governante, rei).

Procedendo desde o versículo 23, se faz referência ao rei em uma forma pessoal. As palavras “seu” e “ele” aparecem 10 vezes nos versículos subseqüentes, 24 e 25. Isto denota que se refere a um indivíduo, não a um poder mundial.

SE NÃO É ROMA, ENTÃO QUEM É?

Se o chifre pequeno não é Roma, então quem é? Há uma opinião quase unânime entre os eruditos bíblicos de todas as denominações - judeus e cristãos, e até alguns destacados eruditos adventistas - que o chifre pequeno é Antíoco Epífanes. Ao examinar a evidência que segue, parecerá abundantemente claro que Antíoco Epífanes cumpre com exatidão todas as especificações de Daniel 8. Não se pode dizer o mesmo de Roma.

O ato de que o chifre pequeno começou sua obra muito antes de que Roma tivesse algum contato com os judeus, e de que o chifre pequeno surgiu de uma das divisões do império grego, pareceria eliminar Roma, pois ela não se ajusta nem ao lugar, nem ao tempo. Ademais, o chifre pequeno é descrito como um rei específico, não como um império. Portanto, como Roma não cumpre estes requisitos fundamentais da profecia, examinemos a Antíoco Epífanes para estabelecer se ele cumpre as especificações desta profecia. Examinaremos o capítulo, versículo por versículo.

“De um dos chifres saiu um chifre pequeno, e se tornou muito forte para o sul, para o oriente e para a terra gloriosa” (8:9).

Segundo Dan. 8:9, o chifre ataca primeiro ao sul, logo ao leste, e em seu caminho ao leste ataca a terra gloriosa.

O reino de Antíoco Epífanes se centrava na Síria, que estava situada ao norte de Israel. Note-se que, durante sua carreira, Antíoco atacou somente em direção ao sul e a leste da Síria:

Ao sul – “Antíoco entrou no Egito, e combateu (seu rei) Ptolomeu Filometor, tomou muitas cidades, e ficou em Alexandria; e com toda probabilidade haveria submetido o país inteiro, se os romanos não o houvessem detido enviando-lhe seu embaixador Popílio, que o obrigou a desistir e afastar-se”. (Gill’s Exposition). As campanhas militares de Antíoco contra o Egito são descritas em I Macabeus 1:19, 20:

Desta maneira, ocuparam as cidades fortes na terra do Egito, e ele tomou seus despojos, e depois que Antíoco havia atacado o Egito, regressou novamente ano cento e quarenta e três e subiu contra Israel e Jerusalém com uma grande multidão.

Ao Leste – Em direção à Armênia e Pérsia, os atrópatas na Média, e os países mais além do Eufrates, aos quais fez pagar-lhe tributo:

Porque estando muito perplexo, decidiu entrar na Pérsia para receber os tributos dos países, e reunir muito dinheiro. (I Macabeus 3:31).

Por esse tempo, viajando Antíoco por altas regiões, ouviu dizer que Elimas no país da Pérsia era uma cidade de grande renome por suas riquezas, sua prata, e seu ouro; e que havia nela um templo muito suntuoso, no qual havia coberturas de ouro e peitorais, e escudos, que havia deixado ali Alexandre, filho de Filipe, o rei da Macedônia, que reinou primeiro entre os gregos (I Macabeus 6:1, 2).

A Terra Gloriosa – Antíoco atacou inesperadamente a terra de Israel, matando dezenas de milhões de judeus, na tentativa de esmagar a religião judaica.

O campo de operações de Antíoco estava precisamente nas três áreas que Daniel menciona. Isto não ocorre com Roma. Muitas das maiores conquistas de Roma foram ao norte e ao oeste dela. Roma conquistou grandes regiões do noroeste da Europa, as áreas que agora são ocupadas pela Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, Espanha e Portugal. Os romanos conquistaram as regiões noroeste da África, que agora estão ocupadas por Marrocos, Argélia e Tunísia. Roma foi claramente um poder que cresceu muito em direção ao norte e em direção ao oeste. Portanto, Roma não pode ajustar-se às especificações desta profecia.

Em seu livro 1844 Made Simple (1844 Simplificado), o escritor adventista Clifford Goldstein argumenta que, em comparação com a Pérsia e Grécia, Antíoco não “se engrandeceu sobremaneira”, e que, portanto, não pode haver sido o chifre pequeno de Daniel 8:9. Uma leitura cuidadosa de Daniel 8:9 revela que a profecia nunca o compara com outros poderes, mas somente diz que “se engrandeceu muito” nas três direções: em direção ao sul, em direção ao leste, e em direção à terra gloriosa. Antíoco não foi um chifre grande em um cenário grande. Foi um chifre pequeno que desempenhou um grande papel em um cenário pequeno. Sua conquista do Egito e seu ataque contra o judaísmo podem certamente ser descritos como “extremadamente grande” no cenário da história do Oriente Médio durante este período. Pode-se argumentar que, de todos os inimigos do judaísmo, Antíoco Epífanes foi o que esteve mais perto de extirpar a religião. Seu ataque contra o judaísmo somente pode ser descrito como “extremadamente grande”.

Examinemos agora o versículo seguinte de Daniel 8:

“Cresceu até atingir o exército dos céus; a alguns do exército e das estrelas lançou por terra e os pisou” (8:10).

Este versículo não está falando de seres celestiais, porque nenhum império, nem sequer Roma, lançou por terra seres celestiais. Tanto a Bíblia como os apócrifos judeus usam uma linguagem similar para descrever os sacerdotes e governantes do povo hebreu. Eis aqui alguns exemplos:

· Os filhos de Jacó são descritos no sonho de José como estrelas. (Gênesis 37:9)
· Em Isaías 24:21, os governantes judeus são chamados “no céu, as hostes celestes . . .”
· Em II Macabeus 9:10, se descreve a Antíoco como “o homem, que pensou um pouco antes que poderia alcançar as estrelas do céu. . .”

Albert Barnes, em suas Notas sobre Daniel, explica:

“A alguns do exército e das estrelas lançou por terra”. O chifre pequeno pareceu crescer até às estrelas e retirou-as de seus lugares e as lançou por terra. Em cumprimento disto, Antíoco derrubou e pisoteou os príncipes e os governantes e a hoste santa, o exército de Deus. Tudo o que se entende aqui se cumpriu com o acréscimo do que ele fez ao povo judeu. Ver I Macabeus 1 e 2 , Macabeus 8:2. “E lhes extirpou” com indignação e desapreço. Nada poderia expressar melhor a conduta de Antíoco com relação aos judeus. (pág. 345)

Agora examinemos o versículo seguinte de Daniel 8:

“Sim, engrandeceu-se até ao príncipe do exército; dele tirou o sacrifício costumado e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo” (8:11).

Quem é “o príncipe do exército?” Strong define “príncipe” (sar) como “cabeça, capitão, chefe, general, governante, guarda, senhor, amo, príncipe, soberano, administrador”. Portanto, o chifre pequeno se engrandeceria contra o cabeça, capitão soberano do exército. Antíoco fez isto literalmente durante o seu governo, quando o sumo sacerdote Onias foi exilado e, mais tarde, assassinado da maneira mais cruel.

Ademais, Antíoco de maneira figurada se engrandeceu contra o mais poderoso príncipe dos exércitos, Deus mesmo. A alcunha Theo Antíoco o declarava como o esplendor radiante, em forma humana, do divino, um deus manifestado em carne (ver, The House of Seleucus, de Edwin Bevan, Tomo 2, p. 154).

Antíoco Epífanes lançou um cruel ataque contra o santuário judeu e a religião judaica, com o intento de fazer desaparecer a religião judaica. Proibiu o sacrifício costumado de cordeiros, e profanou o santuário. O livro de Macabeus descreve como foi tirado o sacrifício costumado e como foi desolado o santuário:

"E em sua arrogância, entrou no santuário e tirou o altar de ouro e o candelabro e todo o mobiliário. . . " (I Macabeus 1:21).

O ataque de Antíoco contra a religião judaica foi a pior crise que enfrentaram os judeus entre o cativeiro babilônico no ano 606 AC. e a destruição de Jerusalém no ano 70 D.C. . Depois de dois anos, a situação no santuário piorou:

"E derramaram sangue inocente por todo lado do santuário, e profanaram o santuário mesmo. . . . O santuário se converteu em um deserto desolado. . . " (I Macabeus 1:37, 39).

O objetivo de Antíoco era destruir a religião judaica e fazer com que todo o povo da Palestina se unisse e adotasse sua religião pagã sob pena de morte. Ordenou:

"Então o rei escreveu a todo o reino dizendo que todos deveriam ser um só povo e que cada um deveria renunciar a suas práticas pessoais. . . e suspender as ofertas vivas e os sacrifícios e as libações no santuário. . ." (I Macabeus 1:41, 42, 45).

Agora examinemos o versículo seguinte de Daniel 8:

“O exército lhe foi entregue, com o sacrifício costumado, por causa das transgressões; e deitou por terra a verdade; e o que fez prosperou” (8:12).

A Bíblia diz que estas calamidades vieram sobre os judeus “por causa das suas transgressões”. Em outras palavras, foram os pecados dos judeus que trouxeram sobre eles essa calamidade. Foram os judeus os que de fato tomaram a iniciativa de helenizar Jerusalém. Uma delegação de judeus proeminentes veio a Antioquia, pouco depois que Antíoco assumiu o poder, pedindo permissão para converter Jerusalém em uma Antioquia e levantar o sinal distintivo de uma cidade helênica - o ginásio. Mais tarde, depois que Antíoco deu posse a seu próprio sumo sacerdote, o ginásio foi construído e logo fervilhavam jovens sacerdotes, que perseguiam o ideal helênico de força e beleza física. (Ver, Bevan, The House of Seleucus, tomo 2, pp. 168-181).

Agora examinemos os versículos seguintes:

“Depois ouvi um santo que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do costumado sacrifício, e da transgressão assoladora, visão na qual era entregue o santuário e o exército, a fim de serem pisados? Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (8:13, 14).

Os adventistas afirmam que fazer com que os acontecimentos nos dias de Antíoco se ajustem à cronologia da profecia requer manipulação. Mas a cronologia de Antíoco se encaixa na profecia ainda melhor do que a de Roma. Os adventistas aplicam o princípio de “dia por ano” a Daniel 8:14, afirmando que os 2300 dias equivalem a 2300 anos. Contudo, as palavras hebraicas para “dia” (yowm e yamim) não aparecem no versículo. As palavras traduzidas como “dias” (ereb boqer) significam literalmente “tardes e manhãs”. Tendo em consideração que o contexto do versículo mesmo fala do costumado sacrifício no templo, que tinha lugar cada manhã e cada tarde, a única conclusão razoável é de que este versículo está falando do sacrifício diário do templo. Certamente seria temerário aplicar o princípio de “dia por ano” a todas as profecias em que se fala de “dias”.

· Jonas disse que Nínive seria destruída em 40 dias (Jonas 3:4), que não equivaliam a 40 anos.
· Em Gênesis 3:6, Deus disse que haveria um período de 120 anos antes do dilúvio, os quais não equivalem a 43.200 anos.

Portanto, devemos ter cuidado quando aplicamos o princípio de dia por ano, especialmente nos casos em que a palavra “dia” nem sequer aparece no texto hebraico, como em Daniel 8:14.

A profecia dos 2300 dias teve um assombroso cumprimento durante o terrível reinado de Antíoco. Poderia ser dito que Deus previu esta terrível ameaça 400 anos antes do ocorrido, e enviou uma mensagem a Daniel para que consolasse e assegurasse a Seu povo que Ele lhes daria finalmente a vitória? Assombrosamente, Deus disse aos judeus precisamente por quanto tempo seria profanado o seu santuário: 2300 sacrifícios da tarde e manhã seriam suspensos enquanto o santuário era profanado.

Considerando que o ano judaico teria 360 dias, 2300 dias resultam em seis anos, três meses e vinte dias. Este período de tempo começou no dia quinze do mês de Cisleu, no ano 145 dos selêucidas, no qual Antíoco estabeleceu a Abominação Desoladora no altar de Deus:

No quinto e vigésimo dia do mês faziam sacrifícios sobre o altar do ídolo, que estava sobre o altar de Deus (I Macabeus 1:59).

Este foi o princípio de intenso sofrimento para os israelitas que decidiram permanecer fiéis a Deus. Judas Macabeu se sentia ultrajado pela injustiça que se estava cometendo contra o santuário de Deus:

"Ai de mim! Por que nasci para presenciar a ruína de meu povo e a ruína da santa cidade, e para estar sentado enquanto é entregue a seus inimigos e o santuário à estrangeiros? Seu templo veio a ser como um homem em desgraça. . . . Eis que nosso santuário e nossa beleza e nossa glória caíram assolados e os pagãos os profanaram" (I Macabeus 2:7, 8, 12).

Macabeu se levantou e iniciou uma revolta contra Antíoco. Durante mais de três anos, lutou e combateu contra Antíoco. Finalmente, o período de 2300 dias terminou com sua vitória sobre Nicanor, no dia 13 do mês de Adar, ano 151. Isto se encaixa com os 2300 dias como havia predito Daniel. Na realidade, os judeus desse período reconheceram estes acontecimentos como um cumprimento direto de Daniel 8.

Depois de sua vitória, quando Judas entrou em Jerusalém, encontrou “o santuário assolado”. (I Mac. 4:38) Imediatamente, deu instruções para que o santuário fosse reconstituído e purificado para que pudesse ser usado novamente para os serviços sagrados (Mac. 4:41-51). Os judeus comemoravam o triunfo de Judas com uma festividade anual chamada a Festa da Dedicação (o “Hannukkah”). O Salvador honrou esta festividade com a Sua presença (João 10:22).

O Santuário foi “purificado” por Judas Macabeu quando limpou os lugares santos, santificou os átrios, reconstruiu o altar, renovou os utensílios do santuário, e pôs tudo em seu devido lugar:

"Então Judas designou a certos homens para combater os que estavam na fortaleza, até que houvesse purificado o santuário. Escolheu sacerdotes de irrepreensível conversação, que se contentavam na lei, os quais purificaram o santuário e lançaram as pedras contaminadas em um lugar impuro. Quando consultados sobre o que fazer com o altar do holocausto que havia sido profanado, lhes pareceu melhor derrubá-lo para que não fosse reprovado por eles por causa de haver sido profanado pelos pagãos. Assim, o derrubaram e puseram as pedras em um lugar conveniente na colina do templo, até que viesse um profeta e lhes mostrasse que fazer com elas. Logo tomaram pedras inteiras de acordo com a lei, e levantaram um novo altar como o anterior e construíram o santuário e fabricaram as coisas que havia dentro do templo e santificaram os átrios. Também fabricaram taças novas e trouxeram ao templo o candelabro e o altar do holocausto e o de incenso e a mesa. E queimaram incenso sobre o altar, e acenderam as lâmpadas que estavam sobre o candelabro para que iluminassem o templo. Ademais, puseram os panos sobre a mesa, e estenderam os véus e terminaram todas as obras que haviam começado a fazer" (I Macabeus 4:41-51).

Desta maneira, podemos ver um impressionante cumprimento da profecia quando Judas Macabeu purificou e recuperou o santuário de Deus.

Que significa “purificado”?

Ao final da profecia dos 2300 dias o santuário seria purificado. A palavra hebraica para “purificado” se usa 41 vezes no Antigo Testamento, e Daniel 8:14 é a única vez que se traduz como “purificado”. Na realidade, a palavra significa “recuperar” ou “justificar”. Note-se a definição de Strong:

06663 tsadaq – uma raiz primitiva; TWOT – 1879; v
AV – justificar 23. Justo 10. Justiça 2. Purificado 1. Limparmos a nós mesmos 1. Retidão 1: 41 ser justo. Seja justo
1a) (Qual)
1a1) ter uma causa justa. Estar no correto
1a2) ser justificado
1a3) ser justo ( de Deus)
1a4) ser justo. Ser reto. (em conduta e caráter)
1b) (Niphal) por ou fazer reto. Ser justificado
1c) (Piel) justificar. Fazer aparecer correto. Fazer o correto a alguém
1d) (Hiphil)
1d1) Fazer o trazer justiça (ao administrar a lei)
1d2) declarar justo. Justificar
1d3) Justificar. Recuperar a causa de. Salvar
1d4) Fazer correto. Voltar-se para a retidão
1e) (Hithpael) Justificar-se

Note-se como se traduz em outras versões da Bíblia (em inglês):

Tradução de Darby (1889): E me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; logo o santuário será restaurado.

Tradução Literal de Young (1993): E me disse: Duas mil e trezentas tardes e manhãs; logo o santuário será restaurado.

Versão King James Moderna (1993): E me disse: Duas mil e trezentas tardes e manhãs; logo o santuário será restaurado.

Tradução Literal de Young (1898): E me disse: Até tardes manhãs duas mil e trezentas, então o lugar santo será declarado correto.

De que está sendo “purificado” ou “recuperado” o santuário?

O santuário está sendo recuperado de haver sido pisoteado e derrubado pela Abominação Desoladora. A Abominação Desoladora começou quando Antíoco Epífanes profanou o templo de Deus oferecendo sacrifícios a ídolos sobre o santo altar de Deus.

Durante a época de Jesus, as ações de Antíoco Epífanes estavam ainda frescas na mente do povo. Entenderam que Antíoco Epífanes era a Abominação Desoladora. O historiador judeu Josefo, um contemporâneo de Jesus, escreveu sobre Antíoco:

"E esta desolação ocorreu de acordo com a profecia de Daniel, que havia sido pronunciada 408 anos antes; porque declarou que os macedônios dissolveriam esse culto por algum tempo". (Antiquities of the Jews, p. 260).

Jesus Se referiu à abominação no livro de Daniel para advertir seus seguidores que uma desolação semelhante havia de acontecer à nação judaica no futuro:

"Portanto, quando virdes no lugar santo a abominação desoladora de que falou o profeta Daniel (o que lê, entenda), então os que estão na Judéia, fujam para os montes "(Mat. 24:15-16).

Essa abominação teve lugar no ano 68 AD quando os exércitos romanos, dirigidos por Céstio, sitiaram Jerusalém, colocando seus estandartes dentro da área sagrada que se estendia mais além dos muros do templo, profanando-o. Os cristãos reconheceram isto como o sinal para partir de Jerusalém, e quando Céstio afastou-se temporariamente daquele lugar, os cristãos saíram, e nem um só cristão morreu na subseqüente destruição de Jerusalém por Tito no ano de 70 AD.

Examinemos agora os versículos seguintes pertinentes a Daniel 8:

“Veio, pois, para perto donde eu estava; ao chegar ele, fiquei amendrontado, e prostrei-me com o rosto em terra; mas ele me disse: Entende, filho do homem, pois esta visão se refere ao tempo do fim” (8:17).

“E disse: Eis aqui te farei saber o que há de acontecer no último tempo da ira; porque esta visão se refere ao tempo determinado do fim” (8:19).

Devemos ter consciência de que “o tempo determinado do fim” não é o mesmo que “o fim do tempo”. Antes, refere-se ao fim do período particular associado com esta profecia. Neste caso, é indicado claramente “o fim da ira”, a saber, das aflições que foram permitidas sobrevir ao povo judeu.

Examinemos a seguir a explicação de Gabriel da visão em Daniel 8:

“Aquele carneiro que viste com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia” (8:20).

“Mas o bode peludo é o rei da Grécia; o chifre grande entre os olhos é o primeiro rei” (8:21).

“O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão deste povo, mas não com força igual à que ele tinha” (8:22).

“Mas, ao fim do seu reinado, quando os prevaricadores acabarem, levantar-se-á um rei de feroz catadura e entendido de intrigas” (8:23).

No versículo 23 descobrimos que o poder do chifre pequeno surgiria “ao fim do seu reinado”. Isto se refere aos últimos tempos das quatro divisões do império grego, pouco antes de que fossem conquistadas por Roma. As quatro divisões começaram na batalha de Ipso no ano de 301 AC. O reino da Macedônia caiu no ano 168 AC, o de Cassandro no ano 146 AC, o dos Selêucidas (sobre o qual governava Antíoco), no ano 65 AC. O de Ptolomeu durou até o ano 30 AC. Considerando que o reino quádruplo deixou de existir quando a Macedônia caiu no ano 168 AC, a profecia requer que o chifre pequeno surja pouco antes desse ano. Antíoco reinou do ano 175 AC até o ano 164 AC.

Gill comenta sobre este versículo:

"Ele (Antíoco) era “duro de semblante”, como se pode traduzir; um homem insolente e descarado, no qual não havia nem vergonha nem temor; não respeitava nem a Deus nem aos homens; cometia os mais atrozes crimes da maneira mais pública; e em particular era atrevido e insolente em suas blasfêmias contra Deus e a verdadeira religião; e também pode significar que era cruel, bárbaro, e desumano, especialmente para os judeus, como o prova abundantemente sua perseguição contra eles; e o fato de que era “entendido em enigmas”, que sabia tanto propor como resolver, mostra que era sagaz e astuto, bom e conhecedor em artes e táticas malvadas; possuía a arte de bajular e enganar os homens; foi por meio do engano e da astúcia que obteve o reino de seu sobrinho; por meio da malvada arte da persuasão, que dominava, seduziu a muitos dos judeus para que renunciassem a sua religião e abraçassem o paganismo; e era tão hábil em políticas malvadas, que sabia ocultar seus próprios desígnios e penetrar nos secretos alheios; segundo Jaquíades, era destro na arte da magia e da astrologia."

Agora continuemos com a explicação de Gabriel da visão em Daniel 8:

“Grande é o seu poder se fortalecerá, mas não por sua própria força; causará estupendas destruições, prosperará e fará o que lhe aprouver; destruirá os poderosos e o povo santo” (8:24).

Antíoco era “poderoso”, embora não tanto como o chifre grande, Alexandre. A profecia disse que Antíoco não era poderoso com força própria. Isto mostra que as calamidades que atraiu sobre os judeus eram por direção e disposição divinas. Este grande poder lhe foi dado para que fosse instrumento nas mãos de Deus para castigar os judeus por seus pecados. Uma situação semelhante ocorreu muito antes na história de Israel, quando Deus enviou Elias a ungir um rei sírio (I Reis 19:15), que mais tarde faria estragos a um Israel rebelde (II Reis 13:3, 22).

A maneira pela qual Antíoco arrasou a santa cidade e massacrou a muitos hebreus é um notável cumprimento da profecia de que “causará estupendas destruições, prosperará e fará o que lhe aprouver; destruirá os poderosos e o povo santo”.

Prossigamos com a explicação de Gabriel da visão em Daniel 8:

“Por sua astúcia nos seus empreendimentos fará prosperar o engano, no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem despreocupadamente; levantar-se-á contra o Príncipe dos príncipes, mas será quebrado sem esforço de mãos humanas” (8:25).

A profecia diz que Antíoco “destruirá a muitos que vivem despreocupadamente”. Isto se refere a sua política de conservar sempre a aparência de amizade em relação aos que queria destruir. Desse modo podia melhor levar a cabo seus propósitos, enquanto seus inimigos estavam confiantes (ver Notes on Daniel, de Albert Barnes, pp. 354-355).

A profecia diz que “será quebrado sem esforço de mãos humanas”. Esta é uma espantosa profecia que indica como morreria Antíoco. Note-se como se cumpriu esta profecia:

"Mas o Senhor Todo Poderoso, o Deus de Israel, o castigou com uma peste incurável e invisível; pois, tão logo havia pronunciado estas palavras, lhe sobreveio uma dor nas entranhas que não lhe saía e um penoso tormento de suas partes internas. Tudo isso era o mais justo, porque ele havia atormentado as entranhas de outros homens com muitos e estranhos tormentos. Sem demora, não cessava de vangloriar-se, e estava todavia cheio de orgulho, respirando fogo em sua ira contra os judeus e ordenando-lhes apressar a viagem: sucedeu, contudo, que caiu da carruagem que sacudia violentamente; caindo, pois, todos os membros de seu corpo ficaram muito doloridos. E assim, o que pouco antes pensava que podia dar ordens à beira mar (era orgulhoso mais além de sua condição) e pesar as altas montanhas em uma balança, foi lançado ao solo, e levado em uma maca ao lombo de um cavalo, mostrando a todos o manifesto poder de Deus. De tal maneira que os vermes saíam do corpo desse homem ímpio, e enquanto vivia em aflição e dor, sua carne caía, e a imundícia de seu fedor era repulsiva a todo seu exército.
E por causa de seu fedor intolerável, ninguém podia suportar transportar o homem que pouco tempo antes pensava que podia alcançar as estrelas do céu. Então, infectado, começou a abandonar seu grande orgulho, e vir ao conhecimento de si mesmo por meio do chicote de Deus, enquanto sua dor aumentava a cada momento. E quando já não podia suportar seu próprio fedor, disse estas palavras: “Há que submeter-se a Deus, um homem mortal não deve considerar-se a si mesmo, orgulhosamente, como se fosse Deus . . .” Assim, o assassino e blasfemo, havendo sofrido o mais dolorosamente, enquanto suplicava a outros homens, morreu uma morte miserável em um país estranho nas montanhas" (II Macabeus 9:5-12, 28).

Albert Barnes acrescenta:

Todas as declarações de sua morte, pelos autores dos livros dos Macabeus, por Josefo, por Políbio, por Q. Curcio, e por Arriano, concordam em representá-la como acompanhada de cada uma das circunstâncias de horror que muito bem pode supor-se estarem presentes numa partida deste mundo, e tendo todas as marcas distintivas do justo juízo de Deus. A divina predição de Daniel, de que sua morte seria “não por mãos humanas”, no sentido de que o instrumento não seria humano, senão que sua morte seria infligida diretamente por Deus, se cumpriu plenamente. (Notes on Daniel, p. 355).

Antíoco Epífanes e Daniel 11

A evidência mais convincente de que Daniel 8 está falando de Antíoco Epífanes é o fato de que Daniel 11 explica Daniel 8 com grande detalhe, e que o chifre pequeno é interpretado desde o versículo 21 em diante. Embora Urias Smith tentasse acomodar a história para que se ajustasse à profecia, sua explicação não é senão uma parodia. Somente Antíoco se ajusta a suas especificações.

Durante a Conferência Bíblica de 1919 dos dirigentes adventistas, houve uma prolongada discussão sobre Daniel 11:

WIRTH: Parece-me que Antíoco Epífanes era realmente a grande figura neste capítulo.

W. C. LACEY: Paráfrases de Daniel 11 vrs. 21. “E em seu tempo (o de Seleuco Filopáter) se levantará (reinará) uma pessoa desprezível (Antíoco Epífanes 176-164) ao qual não darão (não oferecerão) a honra do reino (a soberania, porque Teliostarnes fazia um complô para obtê-lo; também Demétrio; outro partido favorecia a Ptolomeu Filométor) mas tomou o reino (acendeu ao trono da Síria por cima dos outros) com adulações (Euménides, rei de Pérgamo, e Átalo, os sírios, os romanos): assim, ele (Antíoco Epífanes) chegou sem aviso, e se apoderou do reino mediante adulações. Versículos 22, 23. E como uma inundação, as forças inimigas (Hiliodoro, Ptolomeu, Filométor) serão varridas diante dele (Antíoco Epífanes) e serão destruídos (derrotados) junto com o príncipe do pacto (Onías III, deposto do sumo sacerdócio no ano 176 AC, e mais tarde assassinado). E depois do pacto com ele (entre Antíoco Epífanes e Jasón, o novo sumo sacerdote) (Jasón) ele (Antíoco) enganará (depondo a Jasón e elevando a seu irmão Menelau a posição de sumo sacerdote), e ele (Antíoco) subirá (acenderá a soberania) e sairá vencedor com pouca gente (seus poucos colaboradores) versículo 24. Estando a província (as regiões altas, também Sele-Síria e Palestina) em paz e abundância, ele (Antíoco Epífanes) entrará e fará o que não fizeram seus pais, nem os pais de seus pais (despojar altares e templos); despojos e riquezas (dos altares, templos, amigos e inimigos etc.) repartirá a seus soldados. Versículo 25. E ele (Antíoco Epífanes) despertará suas forças (171 AC) e seu ardor contra o rei do sul (Ptolomeu Filométor) com grande exército (“uma grande multidão”); e o rei do sul (Ptolomeu Filométor) se empenhará na guerra com exército grande e muito forte (“muitos, e extremamente fortes” Newton) mas ele (Ptolomeu Filométor) não prevalecerá (“teve medo e fugiu”): porque lhe trairão (Eulaco, seu ministro, Macrón, um premier). Versículo 26. Ainda os que comam de seus manjares (os de Ptolomeu) (seus ministros, Eulaco, Macrón) lhe quebrantariam (por meio da traição), e seu exército (o de Ptolomeu) será destruído, e cairão muitos mortos.

A. G. DANIELLS: Que significa esta destruição?

H. C. LACEY: Dispersaram-se e foram derrotados. Esta é a linguagem em I Macabeus 1:16-19. (Lê). A linguagem em Daniel e em Macabeus se parecem muito. (Continua lendo em Daniel): Versículo 27: O coração destes dois reis será para fazer mal, e em uma mesma mesa falarão mentira; mas não servirá de nada, porque o prazo ainda não haverá chegado.

Chegando a Memphis, Antíoco Epífanes e Ptolomeu Filopátor comeram e conversaram juntos “em uma mesma mesa”, fazendo ver Antíoco que favoreceria a causa de Ptolomeu contra a usurpação de seu irmão Fisón. Assim, Antíoco simula aderir à causa de seu sobrinho mais velho contra seu irmão, Ptolomeu culpa pela campanha inteira a Eulaso – que lhe havia traído – e professa uma grande obrigação a seu tio Antíoco. Mas estas demonstrações de amizade eram “mentiras”. Tão logo Antíoco se retirou, os dois irmãos, Ptolomeu e Fisón, fizeram as pazes e se puseram de acordo para reinar conjuntamente.

Agora leiamos nas Escrituras os nomes destes reis: O coração destes dois reis (Antíoco Epífanes e Ptolomeu Filopátor) será para fazer mal (cada um deles esperando enganar um ao outro), e em uma mesma mesa falaram mentira (em aparente amizade), mas (essa paz sobrecarregada entre eles) não servirá de nada. . .

Versículo 28: E voltará a sua terra com grande riqueza, e seu coração será contra o pacto santo; fará sua vontade, e voltará a sua terra. Essa é a profecia.

Antíoco, esperando que os irmãos egípcios se destruíssem mutuamente em uma guerra civil, regressou para a Síria. Levou com ele imensos tesouros dos povos egípcios capturados. Daniel diz: “voltará . . . com grande riqueza”. A história diz que se apoderou de todos os despojos dos povos egípcios capturados. Em I Macabeus 1:19, 20 é dito: “Capturaram as cidades fortes na terra do Egito, e tomou os despojos deles”. Isso é história.

Note-se que Daniel diz que “seu coração será contra o pacto santo”. O versículo seguinte em Macabeus diz: “E depois de que Antíoco havia esmagado o Egito, voltou no ano 143 (que é o ano 169 AC) e subiu contra Israel e Jerusalém com grande multidão, e se apoderou do altar de ouro, e do candelabro, e de todos os copos, e da mesa dos pães da proposição, e das taças das libações, e dos utensílios, e dos incensários de ouro, e o véu, e as coroas, e os ornamentos de ouro que estavam diante do templo, todos os quais arrancou. Tomou também a prata e o ouro e as taças preciosas; também tomou os tesouros escondidos que encontrou. E quando os levou, entrou em sua própria terra, havendo feito um grande massacre e falou com muito orgulho”.

Esta é a história. A profecia diz: “E seu coração será contra o pacto santo”. Enquanto estava no Egito, circulou um falso rumor sobre sua morte. Imediatamente depois, Jasón, o ex-sumo sacerdote - ao qual Antíoco havia deposto - regressou a Jerusalém e expulsou seu irmão Menelau do posto.

Antíoco, crendo que a nação se havia rebelado, e ouvindo que se regozijavam pela notícia de sua morte, tomou Jerusalém com um grande exército, tomou por assalto a cidade e descarregou sua ira contra os judeus. Matou 40.000 deles, e vendeu 40.000 mais, profanou o templo, ofereceu carne de porco sobre o altar de Deus, restaurou Menelau ao sacerdócio e nomeou governador a Felipe, um bárbaro. “Fará sua vontade, e voltará a sua terra”, tal como se havia predito.

PROF. ANDERSON: Que versículo o senhor cita quando fala da profanação do templo, como diz a história?

PROF. LACEY: No capítulo 11. O versículo 30 fala da profanação do templo. Mas chegaremos a isso um pouco mais adiante. A carreira de Antíoco Epífanes é muito semelhante ao que se predisse do chifre pequeno. Somente para ilustrar: As coisas ditas do chifre pequeno podem aplicar-se a Antíoco Epífanes. Ele é o undécimo da linha, três foram arrancados, matou os santos do Santíssimo, mudou a lei do Altíssimo; lhe foram entregues coisas em sua mão por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, que são três anos e meio. Assim que, suponhamos que o senhor e eu houvéssemos vivido nesse tempo, haveríamos pensado que a profecia se estava cumprindo. . . . Mais tarde, Antíoco descarregou seu desprezo sobre os desafortunados judeus, despachando a Apolônio com 20.000 homens a Jerusalém, os quais mataram grandes multidões, saquearam a cidade, derrubaram casas e muros, assassinaram aos que atendiam aos serviços no templo, e profanaram o Lugar Santo, de maneira que o serviço inteiro se interrompeu, a cidade ficou vazia de judeus, e somente ficaram estrangeiros. À sua chegada em Antióquia, publicou um decreto obrigando todos a conformar-se com a religião grega, sob pena de morte. Assim foi abolida a lei judaica, e no templo mesmo se estabeleceu o culto pagão.

PERGUNTA: Em que data foi isso?

RESPOSTA: No ano 168 AC.

PROF. LACEY: “Puseram sobre o altar a abominação desoladora. Ofereceram sacrifícios sobre o altar dos ídolos, que estava sobre o altar de Deus”. I Macabeus 1:54, 59. Os senhores notem que eles puseram a abominação desoladora no Lugar Santo. A mesma linguagem da Bíblia diz: “A abominação desoladora” é posta no templo; e isto é história.

Daniel 8 e Daniel 11

Qualquer que tente interpretar Daniel 8 sem a interpretação angélica do capítulo 11 não conseguirá muito. E permita-nos destacar que o intento de Urias Smith de fazer encaixar Roma no Capítulo 11 como cumprimento de versículos como o 11:21 é uma paródia. Os detalhes destes versículos se encaixam somente com uma pessoa - Antíoco Epifanes.

Algumas vezes esquecemos que Daniel escreveu para o povo judeu. Daniel escreveu para advertir os judeus da maior crise que haveria de sobrevir ao povo de Daniel entre o tempo do cativeiro na Babilônia e a destruição de Jerusalém no ano 70 DC: o ataque homicida de Antíoco Epífanes contra os judeus. Deus nunca deixou Seu povo sem aviso quanto a futuras situações de urgência. O livro de Daniel, prediz que as calamidades teriam lugar sob o tirano sírio.

Sabendo que os capítulos 11 e 12 transcorrem sobre o mesmo terreno que o capítulo 8, podemos nos perguntar que equivalências proporcionam estes capítulos para 8:10-14. Ajuda-nos o paralelismo entre o 8 e o 11 a entender melhor a passagem em 8:14? Comparemos a profecia do templo de Daniel 8 com a profecia do templo em Daniel 11. O tema de cada passagem é o mesmo. Daniel 8 está expandido em Daniel 11. Em cada um deles um poder blasfemo e conquistador vem contra o povo do pacto santo. Em ambos, o Príncipe do pacto, seu santuário, e os adoradores são derrubados. Em ambos se promete que essa iniqüidade não prevalecerá para sempre, porquanto Deus decidiu vindicar a Seu povo e à verdade, e derramar sua indignação sobre o opressor idólatra e perseguidor. Esta vindicação, sem demora, não há de ter lugar senão até “o tempo do fim” (Daniel 8:17; 11:35, 36) depois de 2300 dias.

A purificação do santuário desde a profanação em Daniel 8:14 corresponde à profanação do santuário mencionada em Daniel 11:31. Um exame da palavra hebraica equivalente a “profanar”, e um estudo de seus sinônimos e seus antônimos, fornece muita luz sobre o significado da palavra traduzida como “purificado” em Daniel 8:14. É impossível exagerar o fato de que Daniel 11:31 está dizendo, em diferentes palavras o mesmo que Daniel 8:9-13, e que, portanto, pode-se ter uma compreensão mais ampla de Daniel 8:14 por meio da segunda descrição expandida da situação que torna necessária a “purificação”.

O TERRÍVEL DILEMA ADVENTISTA

Daniel 8:11-12 diz que o “chifre pequeno” foi o que “lançou por terra” o santuário. O contexto de Daniel 8, é o “chifre pequeno” o que causa tal desordem no santuário que necessita ser purificado e vindicado.

Eis aqui o terrível dilema adventista: Os adventistas afirmam que a “purificação do santuário” refere-se ao processo do Dia da Expiação de Levítico 16, no qual os pecados de Israel eram purificados pelo sangue de Cristo.

Infelizmente, em parte alguma de Daniel 8 se tem os pecados de Israel como os que profanam o Santuário. Pelo contrário, é o poder do “chifre pequeno” o que assolou o Santuário! Portanto, a purificação do Santuário, como se descreve em Daniel 8, não pode referir-se ao Dia da Expiação, antes, refere-se à restauração do santuário, que havia sido pisoteado pelo poder do chifre pequeno!

Isto põe os adventistas num terrível dilema! Daniel 8 diz que o Santuário foi profanado pelo chifre pequeno; contudo, os adventistas dizem que foi contaminado pelos pecados do povo de Deus! É impossível que ambas afirmações sejam corretas. Ou o Santuário foi contaminado pelo chifre pequeno (como descreve Daniel 8) ou foi profanado pelos pecados do povo de Deus. Por qual dos dois o foi?

O erudito adventista Dr. Raymond Cottrell explica o terrível dilema adventista:

"O contexto de Daniel 8:14 atribui a profanação do santuário ao chifre pequeno. A interpretação adventista a atribui à transferência dos pecados confessados ao santuário celestial pelo ministério sacerdotal de Cristo. Então, pretender, diante de nós mesmos, que a interpretação adventista lê Daniel 8:14 no contexto seria identificar o chifre pequeno com Cristo. Em outras palavras, não podemos ter ao mesmo tempo o contexto e a interpretação adventista pelo que concerne à Bíblia". (Cottrell, como aparece citado em Daniel 8:14, por Desmond Ford, págs. A. 115, 116).

Se vamos ser coerentes com a lógica adventista dizendo que a purificação do santuário era o Dia da Expiação, então somos obrigados a chegar à conclusão de que Cristo e Seu povo são o poder do chifre pequeno que contaminou o santuário! Esta é uma conclusão herética e coloca os adventistas num dilema do qual é impossível de se desembaraçarem.

AS OBJEÇÕES ADVENTISTAS REFUTADAS

Nasce do vento o Chifre Pequeno de Daniel 8?

Alguns eruditos adventistas reconhecendo que o chifre pequeno não surgiu da Grécia, como indica o símbolo do bode, sugerem que o chifre pequeno sai de um dos “quatro ventos” do céu, antes que de um dos quatro chifres. Afirmam que o hebraico permite a possibilidade dessa interpretação.

Daniel 8:8, 9 “. . . saíram quatro chifres notáveis para os quatro ventos do céu. De um dos chifres saiu um chifre pequeno. . .”

Em hebraico, as palavras podem ser do gênero feminino, masculino, ou neutro. Em Daniel 8:9, a palavra “eles” está no gênero masculino. Posto que a palavra “chifres” é feminina, e a palavra “ventos” pode ser ou masculina ou feminina, os eruditos adventistas indicaram que a palavra “eles” deve referir-se a “ventos”. Portanto, argumentam, o chifre pequeno surgiu de um dos quatro ventos. Contudo, há um problema com isso. A palavra “um” é feminina “o que parece ligá-la à feminina “chifres”. Se vamos olhar somente a lingüística, não podemos estabelecer com certeza se o chifre pequeno surgiu dos ventos ou de outro chifre.

Assim, temos que buscar outra evidência. O chifre representa um poder real, e seria inusitado encontrar um poder real não associado com um corpo (um reino). Pareceria estranho que a um profeta fosse dada uma visão mostrando uma seqüência de eventos que têm que ver com Alexandre, o Grande, a seguir o desmembramento do império grego em quatro partes, e então o surgimento do chifre pequeno. O chifre pequeno não surge do império grego. Aparentemente o império grego proporciona o pano de fundo para o surgimento do chifre pequeno, ou do contrário, por que iria ser mencionado?

A idéia de um chifre surgindo do vento não só parece estranha, como viola a unidade visual do símbolo. Note-se a seqüência da visão:

· · O bode aparece com um grande chifre entre os olhos
· · O chifre do bode é quebrado
· · Em seu lugar surgem quatro chifres
· · De um destes quatro chifres sai outro chifre
· · Todos os chifres estão ainda unidos ao corpo do bode (Grécia)

Em nenhuma parte do livro de Daniel (ou de Apocalipse) encontramos que um chifre surja do vento, desprendido de um corpo! Os chifres não nascem do vento! Os chifres representam reis ou divisões de um reino. A besta ao reino mesmo. Um chifre desprendido de um corpo representaria um rei sem reino!

Permite o hebraico interpretar o texto com o sentido de o chifre surgir do vento? Isso é debatível. Mesmo que sim, o hebraico também permite a interpretação de que surge de um dos chifres. Agora, deve-se fazer uma pergunta: Que interpretação tem mais sentido? Um chifre que surge de um chifre existente? Ou um chifre que nasce do vento? A única que faz sentido é a de um chifre que sai de um dos quatro chifres existentes.

Fracassou Gabriel em sua missão?

Guilherme Miller, e depois Ellen White, Urias Smith, e outros adventistas do sétimo dia, com a intenção de ligar Daniel 8 a Daniel 9, afirmaram que Gabriel foi enviado novamente a Daniel, 11 anos depois, para explicar-lhe novamente a visão de Daniel 8. Asseguram que a última parte de Daniel 9 é uma explicação adicional de Daniel 8. Para fazer semelhante afirmação, devemos primeiro supor que Gabriel fracassou a primeira vez. Em Daniel 8:16, uma voz ordena: “Gabriel, mostre a este a visão”.

Se Gabriel deixou de fazer entender a Daniel a visão, então desobedecera a Deus. Ademais, isto tornaria Gabriel culpado de praticar o engano, porque no versículo 19 disse a Daniel: “Eis que te farei saber o que há de acontecer no último tempo”. Fracassou Gabriel? Se alguém é um cristão na Bíblia, então deve crer que Gabriel obedeceu à ordem de fazer entender a Daniel a visão, e tem que crer nas palavras do próprio Gabriel de que faria Daniel saber. Portanto, não há razão para que Gabriel regresse 11 anos depois para explicar uma visão que já havia conseguido explicar.

É Daniel 9 uma expansão de Daniel 8?

Argumenta-se que parte da visão de Daniel 8, que pertence à visão (hebreu mar’eh) “das tardes e manhãs” (versículo 26) não se incluiu nas explicações de Gabriel, e que, por isso, Gabriel regressou para terminar de explicar essa porção da visão de Daniel 9.

A posição adventista é que, em razão de a palavra hebraica para “visão” (chazown) ser usada em Daniel 9:21 e 24, e outra palavra, mar’eh, ser empregada no versículo 23, isto indica uma ligação entre a “visão” (mar’eh) de Daniel 9:23 e a “visão (mar’eh) de Daniel 8:26. A alegação é de que foi a palavra mar’eh das “tardes e manhãs” o que Daniel não entendeu.

Em Daniel 8, o termo “visão” se traduz de duas palavras hebraicas: mar’eh e chazown. Diferem ligeiramente em seu significado, mas ambas se referem à mesma visão quando se usam juntas dentro do mesmo capítulo:

“A visão (mar’eh) da tarde e da manhã, que foi dita, é verdadeira; tu, porém, preserva a visão, porque se refere a dias ainda mui distantes” (Dan. 8:26).

Se Gabriel disse a Daniel para preservar a visão (chazown), não seria lógico concluir que quando regressou supostamente para explicar a visão (mar’eh) no capítulo 9, a visão (chazown) ainda estaria preservada?

A posição adventista fica refutada quando consideramos que Gabriel foi a Daniel obedecendo à ordem de Deus (ou de Jesus Cristo), o qual lhe ordenara: “Gabriel, dá a entender a este a visão (mar’eh)” Dan. 8:16. Todavia, é-nos dito que esta é a mesma parte da visão (mar’eh) que Daniel não entendeu! Como se discutiu mais acima, se isto é certo, então Gabriel deixou de obedecer a Deus!

Que confuso pode ser isto? Os adventistas ensinam que em Daniel 8:26 (primeira parte) a palavra “visão” (mar’eh) se refere a alguma parte da profecia em Daniel 8 que seria explicada a Daniel 11 anos mais tarde, enquanto a “visão” (chazown) do mesmo versículo (última parte) se refere a outra parte da visão completa. Esta interpretação não faz sentido algum.

Qual é a verdade? No capítulo 9, encontramos que Daniel estava estudando os escritos do “profeta Jeremias” (Dan. 9:2). O centro da atenção de Daniel era a profecia de Daniel em relação com o cativeiro de 70 anos dos judeus. Quando Gabriel instruiu a Daniel “entende a visão” (Dan. 9:23), referia-se à visão de Jeremias. Gabriel não se referia a uma visão que havia ocorrido 11 anos antes, uma visão que ele já havia explicado, uma visão que já havia dito a Daniel que preservasse!

É a profecia das 70 semanas “cortada” da profecia dos 2300 dias?

Afirma-se que o uso da palavra “determinadas” no texto que diz: “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade” (Dan. 9:24), significa que as 70 semanas (490 anos) são cortadas de um período muito mais longo, a saber, os 2300 anos.

As palavras “determinar” e “determinado” se definem na Concordância Analítica de Young assim: “Marcar de antemão, dizer, ser determinado, aconselhar, ser aconselhado, desatar, julgar/decidir, arrumar, determinar/ mover repentinamente/ ser cortado, por/posto, completar/terminar/determinar”.

É uma pobre exegese considerar somente um significado de uma palavra num esforço por estabelecer um fundamento doutrinal quando é bem evidente, como neste caso, que a palavra “determinadas” tem vários significados. O significado mais evidente é o de que Deus decretou determinado período de tempo, além do qual a nação judaica deixaria de ser reconhecida como seu povo santo. Se os 490 anos serão cortados de algum outro período, então por que das 2300 tardes e manhãs? Por que não cortá-los da profecia dos 1260 dias, ou da profecia dos 1290 dias, ou da profecia de 1335 dias? Como sabemos que a profecia das 70 semanas não é cortada do meio ou do extremo da profecia dos 2300 anos?

A razão por que Guilherme Miller cortou a profecia das 70 semanas da profecia dos 2300 dias é que ele necessitava de um ponto inicial para sua profecia dos 2300 anos. Na Bíblia não há nenhuma data inicial, assim, Miller a uniu à profecia das 70 semanas para poder ter uma data inicial para os 2300 anos. No entanto, não faz absolutamente qualquer sentido iniciar a profecia dos 2300 dias no ano 457 AC porque o santuário não foi assolado senão centenas de anos mais tarde.


A PROFECIA DOS 2300 ANOS ESTÁ CONSTRUÍDA INTEIRAMENTE SOBRE SUPOSIÇÕES:

1. Devemos supor que as tarde e manhãs na realidade significam dias.
2. Devemos supor que o princípio de dia por ano se aplica as 2300 tarde e manhãs.
3. Devemos supor que Gabriel regressou 11 anos mais tarde para explicar a Daniel uma visão que já lhe havia explicado.
4. Devemos supor que Gabriel não se proporia fazer que Daniel selasse a visão inteira de Daniel 8 - que Gabriel planejava regressar 11 anos mais tarde para explicar-lhe parte dela.
5. Devemos supor que Gabriel regressou para falar com Daniel sobre a visão que este havia recebido 11 anos antes, embora Daniel estivesse pedindo a Deus para entender uma profecia inteiramente diferente - a profecia de Jeremias dos 70 anos.
6. Devemos supor que a palavra “determinadas” significa na realidade “cortadas”.
7. Devemos supor que a profecia das 70 semanas é “cortada” do começo da profecia dos 2300 anos, e não da metade nem do extremo dela.
8. Devemos supor que a profecia dos 2300 dias começou no ano 457 AC., ainda que nada relacionado com a assolação do santuário ocorreu, nem nesse ano nem nos três séculos seguintes.

Crê ser sábio aceitar uma doutrina fundamental construída sobre tantas e tão débeis suposições? As doutrinas devem ser firmadas sobre fatos, não suposições. Os fatos são que o chifre pequeno representa Antíoco Epífanes, que a profecia se cumpriu literalmente, e que quase todos os eruditos bíblicos (judeus, cristãos, e até alguns adventistas) nos últimos 2000 anos têm reconhecido a Antíoco como o cumprimento da profecia.


Fontes:

Daniel 8:14, por Desmond Ford.
The 2300 – day Prophecy of Daniel 8 (A Profecia dos 2300 Dias de Daniel 9), Bible Advocate Press
Exposition of the Bible por John Gill.
http://www.ellenwhite.org/port/2300.htm




A CONFUSÃO NÃO COMEÇOU COM OS ADVENTISTAS, MAS EM DANIEL MESMO

Após todas as explicações de John Gill acima, podemos fazer uma análise e verificar que a confusão entre Antíoco e Roma se deve, não especificamente aos adventistas, mas ao próprio livro de Daniel. As explanações do capítulo 9 ao 12 identificam o chifre pequeno do capítulo 7 com o chifre pequeno do capítulo 8, e os evangelhos de Mateus e Lucas consideram que a abominação assoladora era o cerco e destruição de Jerusalém pelos romanos em vez de Antíoco Epífanes, embora não possamos negar que o capítulo 8 de Daniel foi realmente escrito para se referir a Antíoco. Analisando os capítulos seguintes, podemos perceber que o capítulo 7 de Daniel foi escrito em período muito posterior ao capítulo 8, adaptando as ações de Antíoco a alguém do chamado quarto reino, uma vez que Israel não conseguiu estabelecer o reino eterno depois da vitória contra as profanação do templo por Antíoco.

Não se pode afirmar que "Jesus Se referiu à abominação no livro de Daniel para advertir seus seguidores que uma desolação semelhante havia de acontecer à nação judaica no futuro";
pois o evangelho de Mateus fala, não de um tempo de angústia semelhante, mas da abominação predita por Daniel como sendo
"uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá" (Mateus, 24: 21).

Portanto, a grande tribulação não poderia ser nem duas ou três, mas
"um tempo de tribulação",
"como igual nunca houve, nem haverá jamais".


DANIEL 9 – AS SETENTA SEMANAS
"No ano primeiro de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, no ano primeiro do seu reinado, eu, Daniel, entendi pelos livros que o número de anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, que haviam de durar as desolações de Jerusalém, era de setenta anos. Eu, pois, dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, e saco e cinza. E orei ao Senhor meu Deus...." (versísulos 1-4). Os versículos seguintes são a oração.

"Enquanto estava eu ainda falando e orando, e confessando o meu pecado, e o pecado do meu povo Israel, e lançando a minha súplica perante a face do Senhor, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus, sim enquanto estava eu ainda falando na oração, o varão Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente, e tocou-me à hora da oblação da tarde. Ele me instruiu, e falou comigo, dizendo: Daniel, vim agora para fazer-te sábio e entendido. No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, pois és muito amado; considera, pois, a palavra e entende a visão" (V. 20-23).

"Setenta semanas estão decretadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o santíssimo.

Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém até o ungido, o príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; com praças e tranqueiras se reedificará, mas em tempos angustiosos. E depois de sessenta e duas semanas será cortado o ungido, e nada lhe subsistirá; e o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até o fim haverá guerra; estão determinadas assolações. E ele fará um pacto firme com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador; e até a destruição determinada, a qual será derramada sobre o assolador" (v. 24-27).

Notas-se aí que essas setenta semanas partiriam da "saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém". Engana-se muito quem diz que isso se aplica à profecia de Jeremias e não àquela da purificação do santuário. É claro que Jeremias aparece no contexto, mas se refere também às mesmas coisas da profecia do capítulo 8. O que começa no capítulo 9 é apenas uma explicação mais detalhada, determinando o tempo exato do assolamento, havendo a morte do ungido na metade da última semana, antes do começo da profanação do templo que deveria durar os três anos e meio. O tal John Gill nada disse sobre essa ordem para restaurar e edificar Jerusalém. Mas ele deve ter ocorrido realmente em tempo coincidente com isso; porque quem elaborou esse capítulo 9 estava por dentro dos fatos. O que é meio estranho é que está escrito que o fim do assolador seriam "com uma inundação". Se Antíoco não morreu numa inundação, pode ser até que a palavra original tenha outro sentido.

DANIEL 10 a 12 A HISTÓRIA NOS MÍNIMOS DETALHES

Os capítulos 10 a 12 formam uma nova explicação, que acaba de detalhar o assunto. Diz ter ocorrido no "ano terceiro de Ciro, rei da Pérsia", mas que deve ter sido escrito nos dias de Judas Macabeu.

"Agora vim, para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos derradeiros dias; pois a visão se refere a dias ainda distantes" (v. 14).

Referindo-se a um anjo que teria dado a explicação, diz:

"Ainda disse ele: Sabes por que eu vim a ti? Agora tornarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia. Contudo eu te declararei o que está gravado na escritura da verdade; e ninguém há que se esforce comigo contra aqueles, senão Miguel, vosso príncipe" (v. 20, 21).

"Eu, pois, no primeiro ano de Dario, medo, levantei-me para o animar e fortalecer. E agora te declararei a verdade: Eis que ainda se levantarão três reis na Pérsia, e o quarto será muito mais rico do que todos eles; e tendo-se tornado forte por meio das suas riquezas, agitará todos contra o reino da Grécia. Depois se levantará um rei poderoso, que reinará com grande domínio, e fará o que lhe aprouver." (cap. 11: 1-3). Esse rei poderoso era Alexandre, o Grande, da Grécia.

"Mas, estando ele em pé, o seu reino será quebrado, e será repartido para os quatro ventos do céu; porém não para os seus descendentes, nem tampouco segundo o poder com que reinou; porque o seu reino será arrancado, e passará a outros que não eles. O rei do sul será forte, como também um dos seus príncipes; e este será mais forte do que ele, e reinará, e grande será o seu domínio, mas, ao cabo de anos, eles se aliarão; e a filha do rei do sul virá ao rei do norte para fazer um tratado. Ela, porém, não conservara a força de seu braço; nem subsistirá ele, nem o seu braço; mas será ela entregue, e bem assim os que a tiverem trazido, e seu pai, e o que a fortalecia naqueles tempos. Mas dum renovo das raízes dela um se levantará em seu lugar, e virá ao exército, e entrará na fortaleza do rei do norte, e operará contra eles e prevalecerá. Também os seus deuses, juntamente com as suas imagens de fundição, com os seus vasos preciosos de prata e ouro, ele os levará cativos para o Egito; e por alguns anos ele deixará de atacar ao rei do norte. E entrará no reino do rei do sul, mas voltará para a sua terra. Mas seus filhos intervirão, e reunirão uma multidão de grandes forças; a qual avançará, e inundará, e passará para adiante; e, voltando, levará a guerra até a sua fortaleza. Então o rei do sul se exasperará, e sairá, e pelejará contra ele, contra o rei do norte; este porá em campo grande multidão, e a multidão será entregue na mão daquele. E a multidão será levada, e o coração dele se exaltará; mas, ainda que derrubará miríades, não prevalecerá. Porque o rei do norte tornará, e porá em campo uma multidão maior do que a primeira; e ao cabo de tempos, isto é, de anos, avançará com grande exército e abundantes provisões. E, naqueles tempos, muitos se levantarão contra o rei do sul; e os violentos dentre o teu povo se levantarão para cumprir a visão, mas eles cairão. Assim virá o rei do norte, e levantará baluartes, e tomará uma cidade bem fortificada; e as forças do sul não poderão resistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força para resistir. O que, porém, há de vir contra ele fará o que lhe aprouver, e ninguém poderá resistir diante dele; ele se fincará na terra gloriosa, tendo-a inteiramente sob seu poder. E firmará o propósito de vir com toda a força do seu reino, e entrará em acordo com ele, e lhe dará a filha de mulheres, para ele a corromper; ela, porém, não subsistirá, nem será para ele. Depois disso virará o seu rosto para as ilhas, e tomará muitas; mas um príncipe fará cessar o seu opróbrio contra ele, e ainda fará recair sobre ele o seu opróbrio. Virará então o seu rosto para as fortalezas da sua própria terra, mas tropeçará, e cairá, e não será achado. 0 Então no seu lugar se levantará quem fará passar um exator de tributo pela glória do reino; mas dentro de poucos dias será quebrantado, e isto sem ira e sem batalha. Depois se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a majestade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com lisonja. E as forças inundantes serão varridas de diante dele, e serão quebrantadas, como também o príncipe do pacto. E, depois de feita com ele a aliança, usará de engano; e subirá, e se tornará forte com pouca gente. Virá também em tempo de segurança sobre os lugares mais férteis da província; e fará o que nunca fizeram seus pais, nem os pais de seus pais; espalhará entre eles a presa, os despojos e os bens; e maquinará os seus projetos contra as fortalezas, mas por certo tempo. E suscitará a sua força e a sua coragem contra o rei do sul com um grande exército; e o rei do sul sairá à guerra com um grande e mui poderoso exército, mas não subsistirá, pois maquinarão projetos contra ele.
E os que comerem os seus manjares o quebrantarão; e o exército dele será varrido por uma inundação, e cairão muitos traspassados. Também estes dois reis terão o coração atento para fazerem o mal, e assentados à mesma mesa falarão a mentira; esta, porém, não prosperará, porque ainda virá o fim no tempo determinado. Então tornará para a sua terra com muitos bens; e o seu coração será contra o santo pacto; e fará o que lhe aprouver, e tornará para a sua terra. No tempo determinado voltará, e entrará no sul; mas não sucederá desta vez como na primeira. Porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza; por isso voltará, e se indignará contra o santo pacto, e fará como lhe aprouver. Voltará e atenderá aos que tiverem abandonado o santo pacto. E estarão ao lado dele forças que profanarão o santuário, isto é, a fortaleza, e tirarão o holocausto contínuo, estabelecendo a abominação desoladora". (versículos 4-31).

Toda essa seqüência já está explicada no texto de John Gill acima, mostrando que o assolador só poderia ser mesmo Antíoco Epífanes.

"Ainda aos violadores do pacto ele perverterá com lisonjas; mas o povo que conhece ao seu Deus se tornará forte, e fará proezas. Os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia por muitos dias cairão pela espada e pelo fogo, pelo cativeiro e pelo despojo. Mas, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro; muitos, porém, se ajuntarão a eles com lisonjas. Alguns dos entendidos cairão para serem acrisolados, purificados e embranquecidos, até o fim do tempo; pois isso ainda será para o tempo determinado. e o rei fará conforme lhe aprouver; exaltar-se-á, e se engrandecerá sobre todo deus, e contra o Deus dos deuses falará coisas espantosas; e será próspero, até que se cumpra a indignação: pois aquilo que está determinado será feito. E não terá respeito aos deuses de seus pais, nem ao amado das mulheres, nem a qualquer outro deus; pois sobre tudo se engrandecerá. Mas em seu lugar honrará ao deus das fortalezas; e a um deus a quem seus pais não conheceram, ele o honrará com ouro e com prata, com pedras preciosas e com coisas agradáveis. E haver-se-á com os castelos fortes com o auxílio dum deus estranho; aos que o reconhecerem, multiplicará a glória; e os fará reinar sobre muitos, e lhes repartirá a terra por preço. Ora, no fim do tempo, o rei do sul lutará com ele; e o rei do norte virá como turbilhão contra ele, com carros e cavaleiros, e com muitos navios; e entrará nos países, e os inundará, e passará para adiante. Entrará na terra gloriosa, e dezenas de milhares cairão; mas da sua mão escaparão estes: Edom e Moabe, e as primícias dos filhos de Amom. E estenderá a sua mão contra os países; e a terra do Egito não escapará. Apoderar-se-á dos tesouros de ouro e de prata, e de todas as coisas preciosas do Egito; os líbios e os etíopes o seguirão. Mas os rumores do oriente e do norte o espantarão; e ele sairá com grande furor, para destruir e extirpar a muitos. E armará as tendas do seu palácio entre o mar grande e o glorioso monte santo; contudo virá ao seu fim, e não haverá quem o socorra". (v. 32-45).

Até aqui, tudo foi explicado por John Gill. No capítulo 12, que é o resto da dita explicação Angélica, é fica difícil manter o argumento de veracidade das predições.

"Naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo; e haverá um tempo de tribulação, qual nunca houve, desde que existiu nação até aquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro" (Capítulo 12: 1).

Esse tempo de angústia, podemos ver nos versículos seguintes, não é outro, mas o período dos tais três anos e meio já referidos. O grande príncipe chamado de Miguel talvez seja uma referência a Judas Macabeu, aquele que derrotou o inimigo e restaurou o santuário.

"E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno" (v. 2).

Aqui já começam os problemas. Ninguém disse que houve ressurreição dos mortos naqueles dias. Todos dizem que ela só existiu nos dias de Jesus e se completará ainda num futuro muito próximo (estava muito próximo desde dois mil anos atrás).

"Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que converterem a muitos para a justiça, como as estrelas sempre e eternamente" (v. 3). Esse "sempre e eternamente" já reflete a idéia do reino eterno, acabando para sempre as perturbações contra o povo de Yavé, os hebreus. Isso queria dizer que, após a restauração do santuário, o reino daquele povo nunca mais seria abalado.

"Tu, porém, Daniel, cerra as palavras e sela o livro, até o fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e a ciência se multiplicará". ]

John Gill disse que "tempo do fim" não é o mesmo que "fim do tempo"; mas aqui se entende que não existe essa distinção, uma vez que usa a expressão "tempo do fim" em versículo deste mesmo capítulo, com o mesmo sentido.

Então eu, Daniel, olhei, e eis que estavam em pé outros dois, um de uma banda à beira do rio, e o outro da outra banda à beira do rio. E perguntei ao homem vestido de linho, que estava por cima das águas do rio: Quanto tempo haverá até o fim destas maravilhas?" (v. 4).
"E ouvi o homem vestido de linho, que estava por cima das águas do rio, quando levantou ao céu a mão direita e a mão esquerda, e jurou por aquele que vive eternamente que isso seria para um tempo, dois tempos, e metade de um tempo. E quando tiverem acabado de despedaçar o poder do povo santo, cumprir-se-ão todas estas coisas" (v. 5-7).

Aí se nota que, quando isso foi escrito, foi passada ao povo a idéia de que seus problemas estariam definitivamente acabados. Não haveria mais submissão deles a outros povos.

"Eu, pois, ouvi, mas não entendi; por isso perguntei: Senhor meu, qual será o fim destas coisas? Ele respondeu: Vai-te, Daniel, porque estas palavras estão cerradas e seladas até o tempo do fim. Muitos se purificarão, e se embranquecerão, e serão acrisolados; mas os ímpios procederão impiamente; e nenhum deles entenderá; mas os sábios entenderão." (v. 8-10).

Seria o chamado "tempo do fim", quando, segundo vimos do cap. 9, viria a "justiça eterna", isso é, os santos, os hebreus possuiriam o reino para sempre.

"E desde o tempo em que o holocausto contínuo for tirado, e estabelecida a abominação desoladora, haverá mil duzentos e noventa dias. Bem-aventurado é o que espera e chega aos mil trezentos e trinta e cinco dias. Tu, porém, vai-te, até que chegue o fim; pois descansarás, e estarás no teu quinhão ao fim dos dias" (v. 11-13).

Esse versículos (2 de 13 do cap. 12 de Daniel) refletem o começo da crença na ressurreição dos mortos pelos hebreus. Antes isso não existia entre as muitas promessas de Yavé.

E, como os mortos não ressuscitaram, nem os hebreus estabeleceram o reino eterno, mas foram subjugados pouco tempo depois por Roma, aí é que veio a necessidade do capítulo 7, que, embora colocado antes na reunião dos textos, já foi escrito muito posteriormente, até em outra língua; pois os hebreus abandonaram a língua materna (o idioma hebraico) e a substituíram pelo aramaico.

CAPÍTULO 7: O ASSOLADOR JÁ SERIA OUTRO

Agora, analisemos o capítulo 7, onde o assolador já não era mais Antíoco, mas alguém do quarto reino, reino esse que, nos termos do capítulo 8, nunca deveria ter existido.

Esse texto é dado como do "primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia" (v. 1), mas tudo nos mostra que foi escrito muito posteriormente aos dos capítulos seguintes.

"Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando, numa visão noturna, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o Mar Grande. E quatro grandes animais, diferentes uns dos outros, subiam do mar. O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em dois pés como um homem; e foi-lhe dado um coração de homem. Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne. Depois disto, continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças; e foi-lhe dado domínio. Depois disto, eu continuava olhando, em visões noturnas, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres. Eu considerava os chifres, e eis que entre eles subiu outro chifre, pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas. Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; o seu vestido era branco como a neve, e o cabelo da sua cabeça como lã puríssima; o seu trono era de chamas de fogo, e as rodas dele eram fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades assistiam diante dele. Assentou-se para o juízo, e os livros foram abertos. Então estive olhando, por causa da voz das grandes palavras que o chifre proferia; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo destruído; pois ele foi entregue para ser queimado pelo fogo. Quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes concedida prolongação de vida por um prazo e mais um tempo. Eu estava olhando nas minhas visões noturnas, e eis que vinha com as nuvens do céu um como filho de homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e foi apresentado diante dele. E foi-lhe dado domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído. Quanto a mim, Daniel, o meu espírito foi abatido dentro do corpo, e as visões da minha cabeça me perturbavam. Cheguei-me a um dos que estavam perto, e perguntei-lhe a verdadeira significação de tudo isso. Ele me respondeu e me fez saber a interpretação das coisas (v. 2-16).

É de se notar nesse capítulo que a linguagem já era bem mais parecida com a dos cristãos. O rei já não era ninguém da Terra, mas alguém que descia do céu.

"Estes grandes animais, que são quatro, são quatro reis, que se levantarão da terra. Mas os santos do Altíssimo receberão o reino e o possuirão para todo o sempre, sim, para todo o sempre" (v. 17, 18).

Esses santos do altíssimo eram os hebreus. Eles estabeleceriam aquele reino, ao qual todos os outros reinos do mundo deveriam servir para sempre. Aí já aparece o quarto reino, simbolizado pelo quarto animal, o que denota que o texto deve ter sido escrito já quando Roma estava dominando. Se não surgisse essa nova predição, o povo perderia sua fé, uma vez que não estabeleceram o reino eterno após a restauração do santuário como predito.

"Então tive desejo de conhecer a verdade a respeito do quarto animal, que era diferente de todos os outros, sobremodo terrível, com dentes de ferro e unhas de bronze; o qual devorava, fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobrava; e também a respeito dos dez chifres que ele tinha na cabeça, e do outro que subiu e diante do qual caíram três, isto é, daquele chifre que tinha olhos, e uma boca que falava grandes coisas, e parecia ser mais robusto do que os seus companheiros. Enquanto eu olhava, eis que o mesmo chifre fazia guerra contra os santos, e prevalecia contra eles, até que veio o ancião de dias, e foi executado o juízo a favor dos santos do Altíssimo; e chegou o tempo em que os santos possuíram o reino" (vs. 19-22).

Aí estava a nova promessa. Roma seria o último poder opressor, e os hebreus dessa vez deveriam estabelecer o reino perpétuo.

"Assim me disse ele: O quarto animal será um quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços. Quanto aos dez chifres, daquele mesmo reino se levantarão dez reis; e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis. Proferirá palavras contra o Altíssimo, e consumirá os santos do Altíssimo; cuidará em mudar os tempos e a lei; os santos lhe serão entregues na mão por um tempo, e tempos, e metade de um tempo". (vs. 24-25).

As ações do assolador seriam as mesmas de Antíoco, embora esse assolador não fosse mais Antíoco. Causaria uma desolação de três anos e meio e também seria abatido, e os santos – entenda-se os hebreus – estabeleceriam o tão falado reino infindável.

"Mas o tribunal se assentará em juízo, e lhe tirará o domínio, para o destruir e para o desfazer até o fim. O reino, e o domínio, e a grandeza dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão" (v. 26-27).
O povo daqueles tempos recebeu mais essa promessa. Roma seria o último domínio gentio. Os hebreus dessa vez dominariam.

A intenção  dos criadores dos textos bíblicos sempre era esta: dar ao povo a idéia de que seus sofrimentos estavam acabando; que eles finalmente dominariam o mundo, conforme prometido pelo seu deus. Como apareceram os textos dos primeiros livros bíblico na reforma do templo de Josias, onde tudo parecia crer que Josias acabaria com a opressão aos hebreus, as profecias seguintes sempre foram aparecendo com a mesma mensagem: seus problemas estarão brevemente definitivamente acabado. A predita queda de babilônia prometia a nova Jerusalém, que nunca mais seria destruída. Falhou também como o anúncio do messias de Belém que deveria derrotar a Assíria e estabelecer o reino eterno. Como justiça eterna após a restauração do templo nos dias de Judas Macabeu também falhou, esse reino teria que ser estabelecido com a queda do império romano. Assim, o povo não perdeu a fé.

Não sei como os judeus hoje explicam tudo que se passou até agora. Só sei que eles ainda continuam esperando aquele messias que dará a eles para sempre o domínio completo do planeta.

DANIEL ADAPTADO AO CRISTIANISMO

Para os hebreus, seu reino seria restabelecido com a queda da Assíria, depois com a de Babilônia, depois da opressão de Antíoco Epífanes, depois de Roma. Mas, para os cristãos, esse reino já não pertenceria mais aos hebreus, e sim aos que se convertessem ao cristianismo.

No sermão de Jesus sobre o fim, o evangelho de Mateus registra:

"Quando, pois, virdes estar no lugar santo a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes; quem estiver no eirado não desça para tirar as coisas de sua casa, e quem estiver no campo não volte atrás para apanhar a sua capa. .. porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá" (Mateus, 24: 15-19, 21).

Aí vemos o evangelista fazendo referência aquilo que está na profecia de Daniel, não como as ações de Antíoco e a restauração do templo por Judas Macabeu, mas ao cerco e destruição de Jerusalém pelos romanos e um final feliz após aquela tribulação. Para ficar mais claro o que seja "a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel" "no lugar santo", citemos o evangelho de Lucas: "quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação" (Lucas, 21: 20).

E o evangelista usou bem a idéia do capítulo 7 de Daniel, acrescentando alguns formidáveis fenômenos cósmicos:

"Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão vir o Filho do homem sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande clangor de trombeta, os quais lhe ajuntarão os escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus" (Mateus, 24: 29-31).

Aí estamos vendo a promessa do fim dos tormentos transferida mais uma vez. Mas não é tudo: no Apocalipse, o vidente vê ainda um quinto poder mundial semelhante a Roma.

Mas, deixando de lado o quinto poder, vamos nos concentrar nas palavras de Jesus do evangelho de Mateus.

A grande tribulação duraria "um tempo, dois tempos e metade de um tempo" (Daniel, 12: 7); ou "quarenta e dois meses" (Apocalipse, 13: 5; 11: 2), ou "mil duzentos e sessenta dias" (Apocalipse, 2: 6). E o evangelho de Lucas afirma: "... e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos destes se completem" (Lucas, 21: 24).

O início desse tempo só poderia ser o cerco de Jerusalém, como vimos nos versículos citados acima. Mas o grande dilema dos religiosos é o fim desse tempo.

Se o tempo predito era literalmente "quarenta e dois meses", os poderes gentios deveriam ter-se acabado nos primeiros anos do cristianismo. Como não se acabaram, restou a interpretação de um ano por um dia. Mas aplicando um ano por um dia, a derrocada das profecias só foi adiada por vários séculos.

Aplicando um ano para cada dia, considerando que o cerco foi iniciado no ano 64, ou 66, ou 68, conforme divergem os relatores da história, mil duzentos e sessenta anos terminariam na primeira metade do século XIV. Aí, a tribulação deveria ser eliminada, o sol deveria escurecer, e as estrelas deveriam cair do céu, para Jesus descer com as nuvens e reunir seus seguidoress do mundo inteiro. Nada disso ocorreu no século XIV, nem nos subseqüentes.

Como novamente não deu certo a predição do fim dos poderes mundanos, no século XIX surgiram os adventistas, com novo adiamento da grande tribulação. O início do tenebroso período já não era mais o cerco de Jerusalém, mas o começo do domínio papal. Assim, o final da grande tribulação teria ocorrido com a prisão do papa por Napoleão Bonaparte em 1798. Dessa vez, sim, Jesus voltaria e acabaria com este mundo de sofrimento. 1843 e 1844 foram os anos decisivos para a volta de Jesus. As duas mil e trezentas tardes e manhãs seriam dois mil e trezentos anos, e a purificação do santuário seria a volta de Jesus, acabando com as transgressões e estabelecendo a "justiça eterna".

Mais uma vez, a grande decepção. Jesus não veio nada, e os adventistas tiveram que fazer um grande esforço de reinterpretação para manter a fé nas profecias. A purificação do santuário já não era mais a volta de Jesus, mas sim um ato dele em um santuário que crêem existir lá no céu, idéia já mencionada no artigo de John Gill acima. Entretanto, a nova interpretação ainda deixava o regresso de Jesus para tempo muito iminente. No seu último ano de vida, Ellen Gould White, a profetisa adventista, chegou a dizer que grande parte dos que estavam assistindo a conferência de que ela estava participando não passariam pela morte, mas estariam vivos para encontrar com Jesus nas nuvens. Isso já faz quase um século, e com certeza, se ainda existirem, não serão muitas as pessoas que já viviam naquele dia. E Jesus? Quando virá?

Muitas igrejas atuais dizem que a grande tribulação está prestes a ocorrer, até mesmos os adventistas a aguardam. Todavia, o evangelho de Mateus referiu a ela como sendo aquela última destruição de Jerusalém e dispersão dos judeus pelos romanos e asseverou: "uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá" (Mateus, 24: 21).

Agora, como ninguém com um pouquinho de bom senso se arrisca mais a marcar uma data, a volta de Jesus vai sendo aguardada como a justiça social no Brasil. E aquele reino eterno que Josias deveria estabelecer no século VII antes da era cristã, passou para a nova Jerusalém após a queda de Babilônia, um novo reino após a desolação praticada por Antíoco Epífanes, o restabelecimento do reino extinto dos hebreus após a queda de Roma ou num futuro que os judeus ainda aguarda e o reino espiritual de Jesus, não se sabe quando. E os cristãos aguarda o cumprimento de tudo isso em Jesus.  É essa a história espiritual do mundo judaico-cristão.